O lamaçal de corrupção que está afogando a sociedade brasileira nem de longe se parece com o tipo de espetacularização que estamos acostumados a assistir nas telas dos nossos aparelhos de ilusões que é a televisão. A realidade que é apresentada difere muito da ficção global redigidos por escritores de folhetins, feitos para iludir a massa que fica hipnotizada diariamente nos horários nobres. Os telespectadores acabam sendo levados pela ditadura da espetacularização dos assuntos que interferem diretamente na sociedade. Devido aos variados padrões éticos desenvolvidos em cada mídia, não é possível chegar a uma conclusão definitiva sobre o que representa o Estado democrático atualmente no Brasil e no mundo. Esse estado democrático pode ser rabiscado pelos grandes pensadores, filósofos contemporâneos ou pelos fascistas e ditadores disfarçados de grandes lideres da humanidade. O Estado e democracia parecem ter sido levados com os cenários de simulacros de liberdade de expressão mundo afora. Dos sistemas bélicos de Bush e Hussein aos espetáculos de violência no cotidiano das grandes cidades, a ética na imprensa parece estar mais associada a propostas estéticas do que a valores de um verdadeiro Estado democrático, no qual a imparcialidade da informação seria compromisso obrigatório.
Nas últimas décadas, a ética tem sido amplamente debatida em diversas áreas de conhecimento. Mas como podemos debater sobre ética, se existe uma tentativa lacerante de mudar os valores éticos e morais de toda sociedade? Patrocinado pelos meios de comunicação, especialmente pela televisão, sempre percebemos uma tentativa de usar o espetáculo das produções elaboradas, dos textos ilusórios e cativantes, para anestesiar a massa empobrecida politicamente. Não podemos esquecer do papel essencial do profissional de comunicação, que é lutar pela verdade e usar a denúncia como principal arma nessa guerra desigual com os poderes oligárquicos e inescrupulosos daqueles que detém esse arsenal mais poderoso do que centenas de bombas atômicas. A foice do convencimento pelas mentiras repetidas e assimiladas por uma audiência burra ou inexperiente, que acredita nas mentiras contadas, por não ter outra opção, ou por não ter tido a oportunidade de exercitar seu intelecto nas escolas ou universidades ocupadas por filhos das classes dominantes desse país.
Há muito sabemos que o público e o privado se misturam violentamente no cotidiano urbano, levando os cidadãos à sensação permanente de overdose de dados. A comunicação social é uma das grandes vilãs dessa realidade, já que ela imputa a cada cidadão milhares de mensagens em telas ou papel enviadas nos momentos mais diferentes do dia. A ética jornalística foi grosseiramente substituída pela espetacularização das imagens e pelo show de contradições a cada informação veiculada. Discutir de que forma podemos contribuir para mudar de alguma maneira essa situação que eclodiu no país, seria um bom começo para caminharmos para uma solução descente dos problemas do Brasil.
As reformas que devem ser feitas, não podem acabar em “reformas políticas”, os criminosos, ladrões do patrimônio público têm que ser punidos com os rigores da lei, mas a consciência e a sensação de dever cumprido não devem cessar por ai. As reformas devem ser mais profundas, a ética que desejamos deve voltar a ter lugar nas escolas e nas conversas familiares, a “lei do Gerson”, onde levar vantagem em tudo deve ser abolida. Como diz João Ubaldo Ribeiro em uma entrevista á revista Veja, “O povo Brasileiro é corrupto”. Afirmar categoricamente é um risco muito grande, não me atreveria a tal declaração, mas posso concordar totalmente com o que ele afirma, sem correr o risco de ser taxado de inconseqüente.
Utilizando um outro exemplo, sobre a nova ética da imprensa, as notícias que geram o pânico também estão cada vez mais espetacularizadas e cada vez menos aprofundadas. A ética jornalística foi grosseiramente substituída pela espetacularização das imagens e pelo show de contradições a cada informação veiculada.
O Estado democrático seria, então, um lugar onde todas as informações podem circular independente de sua origem e veracidade? Não. A liberdade de informação e de expressão não pode ser confundida de nenhuma maneira com a panacéia em que se transformou o jornalismo no Brasil e no mundo. Que o capital é importante para a manutenção do sistema midiático no mundo, já sabemos; mas não é possível aceitarmos passivamente que o jornalismo exerça a função de publicidade e propaganda, outra área da comunicação que usa legitimamente dentro de seu campo de atuação os instrumentos da mídia para vender algo. Na publicidade e propaganda, as intenções estão claras: o objetivo é vender. No jornalismo, a nova ética desenhada deixa um campo nebuloso no qual a informação só interessa ser veiculada se houver algum ganho político ou financeiro por parte da empresa jornalística e não em nome da socialização das informações a todos os públicos de uma sociedade.
Escrito por Cesar Marques às 19h08
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