Janela da Alma
Como escrever a respeito de um documentário que aborda a maneira como algumas pessoas enxergam o mundo? Alguns dizem que os olhos são a janela da alma, o cabelo é a moldura do rosto e as mãos é que leva o homem para o pecado. Particularmente eu não entendo muito bem no que esses ditames populares modificam a maneira que às pessoas tem de enxergar o mundo. Arrisco-me de forma atrapalhada com um pensamento que acertou a minha consciência nesse exato momento – Se os olhos são a janela da alma, a boca é a privada do homem. De acordo com uma “pensante” popular - o mal não é o que entra pela boca do homem, é o que sai dela.
Então vou me arriscar escrevendo sobre o documentário que aborda a vida de dezenove pessoas com diferentes graus de deficiência visual, da miopia discreta à cegueira total, falam como se vêem, como enxergam os outros e como percebem o mundo. O escritor e prêmio Nobel José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o cineasta Wim Wenders, o fotógrafo cego franco-esloveno Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sacks, a atriz Marieta Severo, o vereador cego Arnaldo Godoy, entre outros, fazem revelações pessoais e inesperadas sobre vários aspectos relativos à visão: o funcionamento fisiológico do olho, o uso de óculos e suas implicações sobre a personalidade, o significado de ver ou não ver em um mundo saturado de imagens e também a importância das emoções como elemento transformador da realidade, se é que ela é a mesma para todos.
O filme é a tentativa acertada de mostrar um mundo onde os “normais” não enxergam a beleza que esta escondida nas nuvens e imagens disformes dos deficientes visuais. Enxergamos apenas aquilo que nos interessa. Não estamos acostumados a ver o mundo da maneira objetiva que ele se apresenta para nós. A entrevista com Hermeto Pascoal foi um caso interessantíssimo. Ele falou mais ou menos isso: "quando estou no ônibus, a pessoa fica com pena de mim por não estar vendo nada, mas eu estou vendo coisas lindas! A visão não está nos olhos, está aqui (aponta para no meio da testa), com isso pode-se ver muito mais coisas. A audição não está nos ouvidos, está na nuca (apontando para o laríngeo, que atravessa a garganta de lado a lado). Quando você quer prestar atenção em algo que está ouvindo você não aponta os ouvidos pra fonte, mas abaixa um pouco a cabeça".
O artista na maioria das vezes acredita que o mundo pode ser melhor. Nós que não somos artistas e não entendemos muito bem o que eles querem representar com essa afirmação, olhamos o mundo de maneira simples. Não paramos para ver as belezas escondidas nas cores, formas, ouvir os sons ou sentir os gostos que estão espalhados à nossa volta. Ouvir um prêmio Nobel de literatura e perceber a maneira filosófica de abordar sobre o olhar.
Depois que assisti o filme Matrix, me arrisco mais uma vez a afirmar que “Janela da Alma”, é um daqueles filmes que mostra a "realidade", como aquilo que os nossos sentidos (principalmente a visão) podem perceber, e como visão mais a emoção, são iguais ao sentimento na maioria dos casos. Saramago fala que demorou todo esse tempo pra chegarmos na situação que Platão descreve na alegoria das cavernas: todos esses bombardeios de informações não informam, são apenas sombras da realidade. Essa realidade que se apresenta na maioria das vezes da maneira que desejamos enxergar sem se importar com a forma que os outros também enxergam o mundo.
O que será que os diretores João Jardim e Walter Carvalho queriam expressar quando entrevistaram todas essas pessoas? Discorrer sobre um tema universal muitas vezes pode ser um artifício para conseguir prender a atenção de seu interlocutor e trazer identificação entre o emissor e receptor. A empatia com o assunto abordado somente acontece quando temos algo em comum com as estórias e dramas contados. João Jardim e Walter Carvalho sabem disso e utilizaram muito bem este recurso ao montarem o filme, cujo subtítulo é Um filme sobre o olhar. Privilegiando depoimentos semelhantes, mas não iguais, os dois diretores nos apresentam a versão do que é o olhar, segundo a ótica de seus ideais.
Não falamos sobre idéias nem ideais, percebemos que os diretores tentaram mostrar um mundo real. Um mundo que é visto por milhões de pessoas que sofrem de “defeitos” na visão. Não falamos do mundo interior. Falamos do mundo real que passa pela janela do ônibus, está presente nas sombras das pessoas que são refletidas em qualquer praça, qualquer lugar ou pessoa do mundo. Nas belezas das cores misturadas ou na beleza disforme de uma imagem disfocada.
Escrito por Cesar Marques às 11h22
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