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SAUDADES DO TUBO
Por: Teco Padaratz Publicado em: 03/2005
Faz algum tempo que eu não lembro como é boa a sensação de pegar um tubo. Talvez porque ultimamente ando tão envolvido nas funções políticas do surf, com organização do WCT Brasil, programas de televisão e colunas da FLUIR, que não sobra tempo nem para lembrar do surf em ondas de alto nível como as que surfava no Circuito Mundial. Esta é a parte que mais me faz sentir saudades, quando lembro dos meus tempos de WCT. E de todas as boas lembranças que tenho em cima de uma prancha, o tubo está presente nas 100 primeiras com certeza.
Este momento de graça entre o surfista e o mar é único entre todos os outros momentos do surf, pois é dentro de um tubo que homem e oceano desfrutam de instantes em perfeita sintonia, como se retomássemos nossa essência natural. Louvado seja o Criador dos tubos!
Cada tubo tem suas particularidades. Uns são mais largos, outros mais compridos e estreitos. Tenho os meus favoritos ao redor do mundo, entre eles G-Land, palco dos tubos mais impressionantes que já surfei na vida. Foi lá também que aprendi a surfar tubos longos, aqueles em que você tem que acreditar na linha que sua prancha está fazendo sem deixar que ela desça para a base da onda. Isto é o que faz G-Land ser tão especial, a fé. Pois se você acreditar mesmo, dá para ir bem longe na parede.
Outro pico sinistro é Teahupoo. Nossa, só de pensar já fico arrepiado. Esta onda tubular é a perfeita mistura entre glória e decepção geral. Talvez seja o pico em que o coração mais sofre de emoção. No drop, os olhos não podem fugir da parede, pois é nela que você vai reparar a curva que a onda faz para dentro da bancada, dando a verdadeira dimensão do tubo que está por vir, podendo ser longo e espremido, ou largo e parado. Você viaja no espaço que fica lá dentro quando ela faz essa curva, tudo se abre e você assiste de um lugar único as pessoas gritando seu nome em várias línguas. Tudo isso em apenas dez segundos. Teahupoo me presenteou com os dez segundos mais insanos da minha vida. Foi lá que me dei conta que um tubo é a melhor metáfora para explicar a relação entre tempo e espaço. O tubo é o nosso momento presente, é o que interessa, o passado já virou espuma e o futuro está armando logo ali na frente. Acho que é por isso que nós, surfistas, temos mais facilidade em aproveitar o aqui e agora, aprendemos isso dentro de um tubo.
Eu não poderia deixar de falar da grande rainha dos tube riders, Pipeline. Este pico já deixou de ser praia para virar mito. Pipeline é o sonho e o pesadelo de muita gente mundo afora. Já ouvi e vi histórias ali que prefiro nem mencionar, pois acho que os tubos de Pipeline merecem um livro, tamanho o poder dessa onda. Ali você lida não só com as forças do mar, mas com muitas outras coisas.
Independente de títulos, é em Pipe que se consagram os verdadeiros mestres do surf, foi lá que desfrutamos dos melhores momentos da era Tom Carroll contra os irmãos Ho, da amistosa batalha entre Kelly Slater e Rob Machado e do começo da odisséia de Andy Irons encarando o sinistro Backdoor de Pipeline.
Aquela rasa bancada produz o tubo mais barulhento do mundo. A placa que cai na base da onda faz um estalo tão alto, que às vezes derruba a gente antes mesmo de completarmos o drop.
Mesmo sendo verdadeiramente pesada, Pipe pode presentear você com tubos muito gostosos de se pegar pelo fato de usarmos pranchas maiores, nos dando a aparente sensação de lentidão.
Nosso planeta deve estar cheio de bons tubos, tanto para esquerda como para direita, basta procurar. Para se ter uma idéia, Teahupoo foi descoberta há 20 anos, não faz tanto tempo assim.
O que pretendo mesmo é lembrar a todos de surfarem tubos e procurarem a sensação de ver o mundo girando à sua volta, com você intocável dentro dele. Botar pra dentro é uma das coisas que um surfista mais sabe e quer fazer da sua vida. Por isso, na próxima onda que você surfar procure um tubo. Ele é a grande salvação de bem estar do cidadão do mar. Não deixe de acreditar na porta de saída, um dia ela se abre pra você. |