MOLEQUES & CIA


EU ODEIO A DÉCADA DE 80

O surf foi engolido pelo sistema, pelo capitalismo, pelo marketing. Todo mundo se vestia igual, ouvia as mesmas músicas, pensava as mesmas coisas. Foram anos de total intolerância para com o diferente.

Por: Fred d' Orey
http://www.totempraia.com.br

Eu odeio a década de 80. A música era horrível, cheia de sintetizadores e tecladinhos baba, e as roupas eram de uma cafonice inacreditável. Aqueles cabelinhos arrepiados, o corte mullet, curto na frente e comprido atrás, os tecidos sintéticos, as estampas geométricas, as cores fluorescentes, roupas justas, cós alto, new wave, new romantic, hair metal, yuppies. Socorro! Eu odeio a década de 80.

E o surf com isso? Bem, até o fim dos anos 70, pelo menos aos olhos da sociedade, ele passou por diversas fases. Primeiro ele era excêntrico, depois chic, depois exótico e depois marginal. Dava um certo orgulho ser surfista justamente por isso. A gente corria por fora da freeway. "Sou surfista mesmo, e daí?". Tinha que ter personalidade pra aturar a reprovação da família, o olhar seco dos professores, a falta de turma no bairro. Mas esses dias de deliciosa exclusão estavam contados.

O boom dos anos 80 tirou o surf de Saquarema e o arrastou pra Joaquina. Aquela estória de palanque fixo, com arquibancada, e prefeito/governador/senador apertando mão do campeão da hora foi duro de engolir. E pra piorar, os surfistas pareciam uns robôs, uniformizados, fazendo manobrinhas ridículas sem pressão até a beira. Os americanos, apesar da sua boçalidade habitual, eram incensados por nós miquinhos do 3º mundo. Fabricados em série pela NSSA (entidade que regia as competições amadoras por lá), os gringos invadiram nossas praias com seus uniformes caretas e postura não me toque. Neguinho achava o máximo e copiava os caras, queria ser eles, morar num MacDonalds de Hungtinton Beach, acender isqueiro num show de arena do Billy Idol. Era humilhante assistir de perto aquela babação de ovo.

O surf foi engolido pelo sistema, pelo capitalismo, pelo marketing. Todo mundo se vestia igual, ouvia as mesmas músicas, pensava as mesmas coisas. Foram anos de total intolerância para com o diferente. A tribo era apenas uma, um bloco uniforme, e ser singular era se opor ao futuro do esporte. O surf não era mais surf, era esporte. Praticamente não havia vida fora dos milhares de rankings que inundaram nossa costa de norte a sul. Arrumava-se um patrocínio mais por razões de status do que econômica. Afinal, não pegava nem bem ser surfista e não ter um mísero adesivo da padaria da esquina.

Eu tinha 20 e poucos anos e achava aquilo tudo muito estranho. Era um estranho no ninho. Não via o menor problema em ouvir João Gilberto e Stan Gets numa surf trip. Não via o menor problema em ser um barbudo ermitão com 23 anos. Não via o menor problema em preferir as esquerdas de Bali às morras do North Shore. Não via o menor problema em idolatrar Tom Curren mas desprezar seus asseclas. Nós somos a soma dos nossos desejos. É o que nos move, pra onde nos dirigimos.

Os anos 90 trouxeram ventos incrivelmente mais democráticos e tolerantes. Graças aos céus. Alguns têm cabelos compridos, enquanto outros surfam com pranchas coloridas. Jack Johnson declara na revista Bravo sua paixão por João Gilberto e Nick Drake, enquanto Matt Archbold acumula sua 27ª tatuagem ouvindo aqueles barulhos que eu nem sei o nome. As pranchas híbridas Vintage tiram uma onda soul, enquanto as escolas de surf do Meio da Barra estão lotadas de meninas. A mentalidade no surf mudou porque o mundo mudou, se abriu, se permitiu. Tem pra todo mundo. Várias ondas. Cada um pega a sua. Seja você mesmo.



Escrito por Cesar Marques às 22h51
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BAHIA O LUGAR IDEAL ARNALDO JABOR - O COLUNISTA EM CRISE NÃO CONSEGUE
>VOLTAR DAS FÉRIAS.
>
>Não consigo ir embora da Bahia.
>Acabaram minhas férias e continuo aqui.
>Mesmo que eu viaje depois do Carnaval, levarei a Bahia comigo.
>Não se trata de louvá-la; quero entendê-la, não com a cabeça, mas com o
>corpo, com as mãos, com o nariz, entender como um cego apalpa um objeto,
>entender por que este lugar é tão fortemente estruturado em sua aparente
>dispersão.
>Aí, descubro que, ao contrário, a Bahia me ajuda a "me" entender.
>Na Bahia, percebo que sou neurótico, obsessivo, sempre em dúvida, ansioso.
>Gostaria de estar na Praia do Forte, quieto, dentro do mar, como um
>peixe, como parte da geografia e não fora dela.
>Salvador não é uma "cidade partida" como é o Rio, nem a cidade que expele
>seus escravos, como São Paulo, que um dia será castigada, estrangulada por
>sua periferia. Aqui, de alguma forma misteriosa, todos são donos da cidade.
>Uma cidade erótica e religiosa, plantada nos cinco sentidos, fluindo do
>corpo e da terra. Tudo se sincretiza, natureza e cultura. Amores fluem.
>Os deuses não estão no Olimpo; são terrenos e florestais, estão na rua, no
>dendê, nas palmeiras.
>Tenho uma espécie de inveja e saudade desta cultura integrada, dessa
>sociedade secreta que vejo nos olhares das pessoas falando entre si, uma
>língua muda que não entendo, tenho inveja da grande tribo popular que
>adivinho nos becos e ladeiras, das pessoas que riem e dançam nas beiras de
>calçada, que se amam na beira-mar, tenho inveja desta cultura calma que vive
>no "presente",
>coisa que não temos mais nas "cidades partidas", sem passado e com um
>futuro que não cessa de não chegar.
>Nesta época maníaca, que se esvai sem repouso, aqui há o ritmo do prazer.
>A civilização que os escravos trouxeram criou esta "grande suavidade", este
>mistério sem transcendência, este cotidiano sem ansiedade, esta alegria sem
>meta, esta felicidade sem pressa. Aqui a cultura vem antes da lei.
>A sinistra modernidade tenta adquirir a Bahia, possuí-la, apropriar-se das
>praias, das ilhas, dos panoramas.
>Mas mesmo o progresso urbano e tecnológico aqui fica domado de certo modo
>pela cultura. E o moderno ganha uma aparência única.
>As festas do ano inteiro não são diversionistas, orgiásticas,
>para "divertir'', são para integrar....
>Não é uma sociedade, mas um grande ritual em funcionamento.
>O Brasil aflito, injusto, imundo, inóspito devia aspirar a ser Bahia.
>Aqui dá para esquecer o jogo sujo do Congresso em Brasília, aqui você não
>morre afogado na enchente da marginal Tietê, nem o Ronaldinho é assaltado
>com revólver na cabeça.
>Não conheço lugar mais naturalmente democrático.
>E, por isso, não consigo ir embora.
>Vou comprar uma camiseta "NO stress" e ficar bebendo água de coco e
>caipirinha para sempre.
>E eu faço o que.....trabalhando diante de um visual desse???
>
>Arnaldo Jabor- 1/2/5 - PARA O JORNAL O GLOBO
>
>
>Orgulho de ser, estar e sentir Bahia!!!!!!!!
>( Pão-de-queijo amigo, vc. é nosso agregado
>bjos.!)

Escrito por Cesar Marques às 23h34
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