
Hoje minha mãe me falou que acharam o corpo do surfista que morreu afogado. Logo de cara pensei: " Esse cara deve ter dado mole"! Mas depois com calma comecei a analisar a situação e me lembrei da última viagem que fiz para Floripa (Casa do meu cumpade Tiquinho). Era inverno também, a maior ressaca no sul da ilha e a "fome" de pegar onda supera qualquer indício de racionalidade ou medo. A fissura de cair no mar e surfar aquelas ondas enormes (e ói que lá no sul as ondas são grandes mesmo, não é papo de surfista calhorda), supera qualquer instinto de responsabilidade, o medo é deixado de lado, e o instinto de super-homem toma conta de você.
Lembro do segundo dia de surf no sul da Ilha, no Campeche, mar grande, uma corrente chata e um frio desgraçado (mesmo de long de neoprene). O pé ficava congelado e quando a gente subia(dropava)na prancha, não dava pra sentir os dedos dos pés. Estava remando lado a lado com Ricardo "Tiquinho", o mar estava grande e não tinha nem um canal para entrar. A única maneira era enfrentar de frente as ondas que quebravam em cima da gente sem nenhuma piedade. Subiu uma série lá no fundo (recordo a cara do negão, olhando para mim com os olhos esbugalhados de terror), começamos a remar desesperados, passamos a primeira, descemos lá no fundo quando furamos a onda, uma sensação idêntica a uma máquina de lavar roupas, chacoalhamos para um lado e para o outro. Quando subi não via mais o neguinho do meu lado, só enxergava o branco da espuma que se formou. Não deu muito tempo para pensar e quando olhei para frente, uma outra onda (parecia ser a maior da série), bem na minha frente. Respirei fundo e coloquei toda a força que podia para tentar descer com a prancha, e passar ileso por aquele "monstro" que estava em minha frente. O esforço foi em vão, e tomei na cabeça, nas costas e no juízo. Não sei quanto tempo eu fui jogado de um lado para o outro, tenho certeza apenas que segurei minha prancha com "toda a força do mundo"! O oxigênio ficou escasso, e graças a Deus, Netuno, ou Nossa Senhora de Fátima...consegui subir de volta a vida! Mas quando procurei minha prancha, em volta da espuma, olhei para frente e vi que outra onda da série iria me jogar para baixo de novo. Nessas horas não tem outra escolha, é segurar o máximo de O2 nos pulmões, e pedir a Deus para subir de volta.
Minhas preces foram ouvidas!!!!
Quando voltei a tona, lembro muito bem do estampido que saiu do meu peito, como um grito a procura de ar. A série tinha passado, minha cabeça doia, não estava machucado (o fundo era de areia), mas a sensação de pânico e medo de morrer ainda estavam bem vivas na minha mente. Tentei achar Ricardinho, ele estava a uns quinze metros á minha esquerda, também tinha passado o mesmo susto.
Como o pior já tinha passado, continuamos remando entramos no mar, olhamos um para o outro e começamos a dar risada. O medo faz essas coisas, quando faltam as palavras o único jeito é você rir das suas próprias desgraças. Ainda bem que aquele continuou sendo apenas mais um dia de surf e minha viagem de férias continuou tranquila. Altas ondas e muita alegria!!!!
Agora deu saudades!!!
É uma pena que esse rapaz que morreu afogado, não tenha conseguido passar a arrebentação, não deu a mesma sorte que eu . É uma pena que seu "strepp" tenha partido. Fica o alerta; não adianta você achar que pode desafiar a natureza se você não estiver bem preparado, e não tiver a certeza do que você sabe o que está fazendo. Muitos surfistas mais jovens e menos experientes acham que tem condições de surfar ondas "grandes", surfar as ressacas, sem experiência ou condições apropriadas para isso. "A sorte nem sempre funciona". Para a familia do rapaz...ficam os meus sinceros sentimentos.

Escrito por Cesar Marques às 00h02
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